A room with an absolute view

absoluto

I
maio/junho

"...o isolamento inviolável é hoje a única maneira de demonstrar alguma medida de solidariedade. Toda colaboração, todo o valor humano da convivência e da participação sociais, apenas mascaram uma aceitação tácita da desumanidade. São os sofrimentos dos homens que devem ser compartilhados: o menor passo no sentido dos seus prazeres é dado na direção do recrudescimento de suas dores".

 

270596

Como falar de uma cidade sem encantos? Que dizer de uma viagem que começou em uma direção, estagnou-se no meio do caminho, girou sem rumo, voltou atrás e veio parar aqui, neste ermo à beira de uma estrada em que as galinhas ciscam na pista, onde os galos cantam a qualquer hora e o trem passa direto?

Vindo de Rio Claro pela estrada de Jaú, a primeira coisa que se avista é o presídio, principal empregador da cidade -- alguns afirmam que as granjas da Sadia e da Perdigão empregam mais gente, mas eu ainda não as vi e, portanto, até agora não passam de boatos. Quatro transversais e chega-se ao centro da cidade; mais cinco e já acabou. Do centro, que é a esquina da rua 4 com a avenida 1, temos oito quadras para a direita e sete para a esquerda. Três bancos, três farmácias, duas padarias, quarenta e quatro lojinhas de roupas, três casas do agricultor, duas lojas de móveis, três ou quatro restaurantes de prato feito, um à la carte, uma igreja católica pavorosa e vinte evangélicas patéticas e doze botecos. Pronto. Nos subúrbios, a estação ferroviária, um laguinho com um hortinho, muitos, muitos galpões enormes da FEPASA e do falecido IBC, todos abandonados, uma pasteurizadora da Flor da Nata, umas cinco madeireiras, um conjunto de casas populares e projetos de reflorestamento: pinheiros e eucaliptos. Em pleno cerrado!

No primeiro dia em que acordei aqui, dei uma volta pela parte do jardim e do quintal que o Nicolau, fila de muito maus bofes, permitiu que eu inspecionasse. Dezenove plantas ornamentais diferentes, treze delas floridas, só quatro que eu conheça. Bosta do Nicolau por toda a parte, galinhas e galos garnisés às dúzias, milhares e milhares de pardais e outros seres alados igualmente barulhentos e perniciosos, cada um com uma bostinha mais cáustica que o outro. Moscas. Moscas. Moscas. Azuis, negras, amarelas, marrons. Borrachudos e as abelhas do Nelson.

A grande sensação social da noite anterior foi a inauguração do bar do Paraná, na rua 4 entre as duas linhas do trem. Música ao vivo: Marcelo & Marcelo. Grosas de bêbados, rodeados de moçoilas de bustiê e sandálias de salto plataforma.

Moro na Avenida Doze, nº 119 ou 131, dependendo de quem estiver contando, se a SABESP ou a Prefeitura. A avenida 12 é a última à esquerda de quem chega à cidade e vai da rua 3 à rua 5.

Saindo de casa à esquerda, viro à esquerda de novo, caminho uns quatrocentos metros até as linhas do trem, obedeço às placas e paro, olho, escuto, sigo em frente e chego ao centro. Compro pão e volto. Minha cozinha deve ter uns vinte quilos de pão velho. À direita, passo pela oficina do Cláudio Mão de Onça, pelo barzinho do seu João, pela Gallo Materiais de Construção, pelos fundos do Lar dos Pobres e chego à beira do mundo. Terrenos baldios, armazéns ferroviários vazios e vagas madeireiras ao longe. Mais além, estradas retas de terra bordeadas de eucaliptos ou pinheiros e, mais longe ainda, o cerrado. A gente anda levantando poeira e fica ouvindo o apito dos trens manobrando lá atrás.

 

280596

Sei que parece implicância com a cidade, mas um dos lugares mais bonitos daqui é o velório municipal, bem em frente ao cemitério. O prédio é uma construção dos anos 30, estação de um ramal abandonado da ferrovia, isolado da cidade por um descampado em que se instalam os parques de diversão e circos que passam por aqui. Agora mesmo está lá o Gran Circo Americano, com uma bela lona listada de azul e amarelo, daquelas italianas anti-incêndio. A estaçãozinha foi restaurada para servir de velório, e do outro lado da rua está o cemitério, cujo muro oculta as campas mas deixa ver os flamboyants, as sibipirunas e as espatódeas que dão sombra aos falecidos e a seus parentes. Atrás do cemitério, um vasto vale descendo em um declive leve por uns três quilômetros até um rio ou riacho que não se avista, semeado aqui e ali de pequenos sítios, pastos e pinhais, e encerrado pelos paredões e mesetas da Serra dos Padres. À esquerda há um eucaliptal com árvores de trinta metros de altura e mais campos.

 

290596

Alguma coisa deve ter acontecido. A cidade está cheia de pequenos grupos de gente conversando em frente aos bares e farmácias, todos olhando mais ou menos para a mesma direção, lá para as bandas de Corumbataí.

Dia produtivo: cortei a grama do jardim, capinei o quintal, lavei a bosta de passarinho do terraço e passei pano de chão na sala. E ainda fiz 13 laudas de tradução. Nada mau. São 09:00 hs da noite. Vou para a cama, até amanhã.

 

300596

Voltei de São Paulo com a mudança, passando por Piracicaba. Parei para conversar com a Bea e combinei de ir à festa junina da Ana Nepomuceno em Rio Claro com ela. Chegamos em casa às três da manhã, o Nelson e eu. Minha mãe deve estar uma arara com ele, e comigo por tabela.

 

310506

Maio tem 31 dias, não tem?, ou será que hoje já é o mês que vem?

Fui de bicicleta até Analândia, 23 quilômetros de estrada. Cheguei, dei uma volta exausta pela cidade, ainda menor que Ityrapina, mas muito mais bonita, tomei um sorvete na praça sorrindo pr'as moças e voltei de carona na caminhonete de um queijeiro de Brotas. Comprei três queijos de cabra dele e meu dinheiro acabou. Tragédia: só depois de chegar em casa com os três queijos é que vi que só tenho mais quatro cigarros, e 45 centavos no bolso. Hoje à noite durmo em Piracicaba e amanhã tem festa na chácara da Cecília Wetten.

 

020696

Bela merda de festa junina. Eu devia ter lembrado que uma festa organizada pela Ana Nepomuceno não podia ser boa coisa. Ainda por cima, arrastei comigo a Bea, que teve de ficar sorrindo amarelo para as insinuações de desconhecidos sobre o estado das relações dela comigo. A única coisa que valeu a pena foi que, quando chegamos, trazidos da rodoviária pelo Papoula, a Cecília, já completamente bêbada às seis da tarde, estava ouvindo um disco do Quilapayun que eu não ouvia há 23 anos. A sensação que me deu foi a mesma que eu tinha quando estava fora e chegava a um lugar onde estivessem ouvindo música brasileira. Comecei a garimpar entre as fitas dela e achei Violeta Parra, Victor Jara, Inti Illimani, Daniel Viglietti que é uruguaio mas conheci no Chile, Atahualpa Yupanqui que é argentino mas idem, Angel e Isabel Parra, Carlos Toro e mais um monte de preciosidades de cuja existência eu já quase tinha esquecido. Mas lembrei de todas as letras, e fiquei ali sentado lacrimoso por uma meia hora, surdo aos protestos de quem tinha vindo para festejar. Tive de ser arrancado do toca-fitas. Depois disso, foi rotina. Vodca de montão, todos ficando de pileque e todos repetindo ritualmente, pára Tomás assim você vai ficar bêbado e terminei a última garrafa sozinho com todos eles caídos pelos cantos. Muita fofoca ao pé da fogueira e lá pelas tantas um tal de René perguntando, você é goiano de onde?, minha mulher é de Pirenópolis. Grandes abraços, e o fulano, como é que vai? e mengano? Mundeco. A Christiane continua solteira, dizem que mais linda que nunca. Não havia mais ônibus para Piracicaba e fui dormir com a Bea na casa da minha mãe.

 

030696

A Cecília Wetten foi da Fração Bolchevique da Polop e do MEP, exatamente a mesma carreira que a minha. Puxando as lembranças do fundo do baú, ela acabou lembrando do Daniel Queiroz e de uma foto minha que saiu em um jornal em 79, quando eu estava preso na Inglaterra, de que nem eu me lembrava. Ela caiu na grande redada de 77 e pegou 3 dias seguidos de pau-de-arara sem abrir, então era ela a Marta que apanhou à-toa no DOI-CODI da Tutóia: os que ela estava protegendo já tinham sido presos, mas ela não sabia. Grande Cecília. Hoje ela bebe, e eu viajo. Parece que já faz tanto tempo, e faz, e me dá um certo engulho pensar que tudo isso aconteceu para que o Genoíno pudesse pontificar na Globo sobre as responsabilidades da oposição.

Cheguei a Piracicaba ontem de manhã e passei o dia de mau humor, pensando na Cecília, no Genoíno e nas crianças, a Bea não entendeu nada, nem eu estava com disposição de explicar. Para piorar, a Fox passou "Esqueceram de Mim" e, logo em seguida, "Uma Babá Quase Perfeita". Perfeito. Quem já viu os dois sabe do que estou falando. Quem não viu não sabe, e vai continuar sem saber.

Vim para Ityrapina com a Eneida, toda chorosa porque o namorado não gostou que ela estivesse dando pro ex-marido.

 

040696

A rádio Estância passou o dia tocando Credence Clearwater, The Mamas and the Papas, Moody Blues, The Who, Steppenwolf, Paulinho da Viola e João Gilberto. Preciso ir a São Pedro apertar pessoalmente a mão do programador, ele é dos meus. Esse tipo de preferência musical nunca acontece por acaso.

Em Pirenópolis eram as vacas no jardim. Aqui é a bosta de passarinho. Não acaba nunca. A Torá diz que nada é pouco ou muito importante diante do Infinito. Talvez a bosta e a vaca sejam o mesmo aos olhos do prefeito de Ityrapina. Sísifo empurrava uma pedra, eu empurro o esfregão.

Na estação experimental, à beira do lago, no meio do mato e longe das vistas do público, tem uma mesinha com, pasmem!, uma tomada de 220 V. Hoje à tarde, depois de lavar bosta e antes de vir para Rio Claro, fui para lá de bicicleta e trabalhei umas duas horas: 9 laudas de 1650. Do meu escritório silvestre, entre pinheiros e paus-ferro, dá para ver a parte bonita da cidade, um pedaço da estrada e outro da ferrovia, o lago quase inteiro e uma casa branca na qual eu passaria meus últimos dias.

 

050696

Viemos de Rio Claro por dentro, passando por Camaquã, Ibaté, Graúna e Ubá. Parte do caminho vai bordeando a antiga estrada de ferro, arrancada já lá vão trinta anos. Ibaté ainda tem a estação, mas o abandono da região é visível. Só pasto, e nativo, com uns boizinhos magros pastando aqui e ali. Dez quilômetros antes de Ityrapina começa a cana, que eu nem sabia que já tinha chegado por aqui.

Não havia luz quando chegamos. Estava saindo para almoçar no La Pequetita e depois trabalhar no bosque enquanto seu lobo não vinha e o lobo veio e acabou com a festa. Fomos ver o sítio do Joaquim, lá pr'os lados de Ubá, e levar os cem pintinhos Rhodes que o Nelson comprou na estrada por dez contos e comprar ração para o Lao. O sítio do Joaquim tem uma vista absolutamente linda, dá para ficar a tarde inteira só olhando e esperando o trem passar no pé da serra lá do outro lado, mas só para isso serve. O Oscar quis que fôssemos até a divisa com a fazenda do Padula, dois quilômetros de colonião de dois metros de altura e mato. Voltei com o cabelo tão cheio de picão que pensei em tosar tudo, mas acabei conseguindo tirar todos, depois de uma hora e meia. Já os micuins, que o Nelson insiste que são piolhos de galinha e o Oscar garantiu que não era época, esses eu vou ter de ter paciência e ir tirando aos poucos, com muito banho e sabão inseticida. Estou coçando mais que a noite de chuva que dormi com o Pilé e três cavalos no curral da fazenda do Zé Playboy em Corumbá.

. . . . . . .

Vou jantar aqui ao lado, em Charqueada, na casa do Cristiano Marton, e depois sigo para Rio Claro para telefonar para São Paulo. Cumpridos os deveres paulistanos, vou direto para Piracicaba, que amanhã tem almoço na rua do Porto, piapara na brasa, almeirão, arroz e pirão. Nada como ser guloso e portátil!

 

060696

Picanha no alho com agrião, arrozinho, feijãozinho, torresminho, salada de palmito, pudim de leite, café forte, cachaça de alambique envelhecida em casa. O Marton sabe comer, mas a terra dele não presta. Onde não tem areia, tem brejo; onde a terra é boa, é área de proteção. Estou com 84 quilos e subindo.

 Duas horas parado na beira da estrada em Rio Claro -- olha a chuva, corre pr'o coberto, já passou, volta para a estrada -- três horas para chegar de Rio Claro a Piracicaba. Ou corto o cabelo ou paro de andar de carona. O Nelson tem razão, Rio Claro não presta. É como Barbacena, de onde eu só consegui sair depois de ficar 6 horas em pé no trevo, e isso que quem me levou foi um chofer de caminhão crente de Santos Dumont.

Os desgraçados dos micuins eram membros de uma conspiração secreta para me comer da cabeça aos pés! Estou de marca de picada até atrás da orelha, para não mencionar outras partes menos mencionáveis. Pena que os camaradas da KGB estão agora no ramo do contrabando, senão eu mandava interrogar um por um.

 

070696

Quando o mundo não fora ainda criado e a manhã cobria tudo de luz baça, meu avô sentava-se à porta da casa dele e fumava um cigarro atrás do outro, amassando as bitucas com o salto da bota. Eu vinha sentar perto dele e ficávamos olhando as gentes passarem e falando mal da vida delas. De quando em quando, entrávamos para tomar um café acabado de fazer. Os contornos do horizonte eram embaçados e a manhã não acabava nunca.

 

080696

Surpresa: a tontinha da Alice é a mais rápida das meninas: certeira e mortífera. Espero que continue gostando de mim. Ela só se perde quando quer sumir.

 

090696

Fim de semana prolongado em Piracicaba, tranqüilo e caseiro. A Bea pega o ritmo de casa com rapidez, talvez demais. Agora que os meus projetos são mais avulsos, esse tipo de manobra fica muito óbvio; se eu estivesse disponível, já estava casado, e com mais uma filha sem limites.

Definitivamente, essa permissividade com as crianças pregada pela mudernidade vai criar um bando de crápulas submissos; todas elas, sem exceção, são o modelo acabado do canalha: aproveitadoras, calculistas, interesseiras, maniqueístas, submissas com os mais fortes, cruéis com quem estiver em situação de inferioridade.

Viva a vara de marmelo!

Sem contar o lado da formação intelectual, mas isto já é outra conversa. Os antigos aprendiam mais só com o Tesouro da Juventude do que essa criançada com todas as enciclopédias em CD.

Ontem à noite, em horário nobre, a rua Aurora e a cara de viado enrustido do Sérgio Amaral e de basbaque deslumbrado do Fernandinho em todos os canais: visita presidencial a Pirenópolis. Valeu pelo orgulho sereno da chileninha Rosario, recebendo o presidente em casa. O restaurante da Mariângela, o poção da ponte, a cadeia, o pitidogue do Maurício, a rua do Rosário, a carroça de areia do Adão, o calçamento de pedra, a matriz embrulhada em andaimes: estava tudo lá.

Notícias da Christiane em um sábado, imagens de Goiás no outro: ainda bem que eu não acredito em presságios, ou já estaria a bordo de um rápido federal com o coração aos pulos.

 

100696

Volta a Ityrapina via São Pedro e Itaqueri da Serra, as duas valem um regresso mais demorado. Preciso ainda ir a Corumbataí e a Ipeúna; mais tarde, Brotas e São Carlos; só então posso dizer que conheço a região, pelo menos de vista.

Piracicaba, Itaqueri, Ityrapina, Corumbataí, Ibaté, Ipeúna, Camaquã, Ubá, Graúna: vale um dicionário dos toponímicos da região.

Está fazendo frio. Cheguei em casa, o Nelson já estava aqui, com cara de gato ladrão, sem motivo algum. A Inês passou um dia em casa enquanto eu estava em Piracicaba, e deixou o crapulazinho sem limites que ela está cevando para o mercado de trabalho solto entre as minhas coisas: um chapéu de fita rasgada que serviu de cama para os gatinhos que não queriam dormir, uma caneta tinteiro com a ponta quebrada por ter sido usada para escrever na parede e no tampo da mesa de mogno, tinta verde espalhada pelo chão da sala. Que lindinho, tão livre, tão espontâneo! E isso que eu nem fui até o quarto (o meu, claro) onde eles dormiram; estou com medo de ver o que a pedagogia libertária fez com a minha gaveta de meias.

Não, não é rabugice. É tristeza. Satisfação imediata dos impulsos, consumo desenfreado, ausência de solidariedade e de interação social, fase anal mantida e reforçada: toda uma geração, em todo o mundo, da aldeia à metrópole, de estroinas perdulários, deslumbrados, egoístas, vaidosos, pretensiosos, ignorantes e politicamente corretos. Como vai ser a geração que eles vão criar?

Está fazendo frio, muito frio; meus dedos estão começando a ficar duros. Um fogão de ferro, a lenha, está custando 180 reais no pregão de Rio Claro, que é careiro. Pesquisando um pouco, dá prá comprar dois, um para o quarto, outro para o escritório; fechando bem a casa, fica tudo quentinho. Pena que o inverno dura pouco. O saco vai ser ficar catando lenha, São Roque que o diga.

Às vezes esqueço de para quem estou escrevendo, e começo a divagar demais; mas essa deriva lítero-cibernética até que é capaz de me levar a algum lugar. Alguém podia inventar uma terapia da palavra escrita, com essa eu me entendia. Se até terapia de vidas passadas paga o leite das crianças do terapeuta (there's a sucker born every day, said Barnum), porque não uma internetanálise? ou uma psicoe-mailise?

(Não disse? Fui ao quarto buscar um pulôver e vi os sinais da passagem do meu sobrinho huno: chiclé mastigado no criado-mudo, farelo de bolacha na cama, um dos meus cavantes e elefalos rasgado.)

Notícias familiares acumuladas durante o périplo flúvio interiorano: minha irmã que ouve vozes brigou com o marido xavante e está irritada; minha irmã que tira a roupa no metrô mudou-se para Pinheiros -- o marido dela espuma; minha irmã que tenta o suicídio casou-se com um irlandês e mora em Nova York; minha irmã adolescente ouve a Transamérica e ainda não sabe o que quer ser quando crescer. Tenho um irmão batista e outro jornalista.

Perhaps love is like a window; perhaps it's like a door.

Ah!, lembrou-se o Nelson, um amigo teu, parece que de São Paulo, acho que é Cláudio ou o Xexéu, ou então é aquele outro do Rio, ligou ontem e falou com a tua mãe ou com a Mariana, se não me engano é para ligares para ele. Se tem uma coisa que eu aprecio nos lusitanos, é a precisão.

Estou falando indevidamente: se é para sermos rigorosos e detalhistas, hoje já é amanhã e eu continuo falando como se fosse ontem -- é que as coisas vão ficando acumuladas, e eu estou começando a gostar daqui, e isso me deixa nervoso e prolixo.

. . . . . .

Confirmado no bar do Roberto, guarda penitenciário que se vira: o presídio tem 250 funcionários em três turnos; a Perdigão, segundo maior empregador, paga 40 e tantos salários, e a Sadia 30 e poucos. Logo vi. E, de uma vez por todas, está na hora de encerrar o dia. Boa noite.

 

110696

Talvez seja o cerrado, mas não sei se já estou pronto para falar disso. Os chapadões, paredões, mesetas e vales  largos, a terra dura e seca mesmo nas águas, as árvores retorcidas e a erva esparsa, a vastidão e o céu alto não são assunto que se trate com leviandade. Depois de uns dois ou três copos cheios daquela cachaça de Ubá que o Nelson trouxe, talvez eu me atreva.

Estou notando em mim uma certa tendência (bem discreta, que no fundo sou conservador) a buscar formas de neutralizar alguns pronomes. Será que sou a favor ou contra a aglutinação do português? Verbo flexionado ou pronome? Posição ou preposição? Complexo morfológico ou complexo sintático? Camões ou Houaiss? O que, meu deus, o que? Ligue para 0-900-5555 e dê a sua opinião.

Seja como for, se é para aglutinar e desmorfologizar, que seja à moda de Goa e não à de Houston, como querem alguns editores mudernos.

Tabaco e meus próprios cigarros; vinhas e meu próprio conhaque; feijão; mandioca e minha própria farinha; porco e galinha a pasto; cabras, vacas, meu próprio queijo; um pomar e uma horta; girassol, ervilha torta e sorgo. Tudo isto cabe em 10 alqueires, e sobra. Dois empregados, um trator de 40 hp, uma parabólica, um telefone e estou instalado.

 

II
junho/julho

O tempo gasto em preparações nunca é desperdiçado.


180696

Volto de São Paulo emocionalmente drenado. Antes de ir, pelo menos na noite de véspera, começo a sentir dores de estômago, ansiedade, nervosismo generalizado; já era assim desde os tempos de Poços de Caldas. Acho que é a expectativa dos conflitos que sei que vou ter de enfrentar assim que puser os pés na cidade. Bel, trabalho, trânsito, contas a pagar, barulho, excitação: sou paulistano até a última peptina, e aproximo-me da cidade como amante desprezado e esperançoso. Quando volto, estou esgotado. Vou precisar de uns três dias para me recuperar.

A Marília cresceu e está visivelmente mais carinhosa, o Lucas está mais doce que nunca.

A Bel continua a mesma.

Passei a tarde de segunda com a Fernanda: cerveja, domecq, almoço, cerveja, domecq, andanças automobilísticas meio a esmo, semi-bebedeira, muita conversa fiada, muita, muita entrelinha (pelo menos da minha parte, mas passaram recibo). Noite com a Márcia: cerveja, domecq, janta, cerveja, domecq, andanças automobilísticas meio a esmo, semi-bebedeira, muita conversa fiada e nenhuma entrelinha, mas muita choradeira (dela) no final da noite, ou melhor, de manhã ("Seu Antonico, vou-lhe pedir um favor, que só depende da sua boa vontade: é necessária uma viração pr'o Nestor, que está passando por grandes dificuldades. Ele está mesmo dançando na corda bamba, ele é aquele que, na escola de samba, toca cuíca, toca surdo e tamborim. Faça por ele como se fosse por mim"). Acho que vou ter de ir ao Rio no sábado que vem. Dependo só de ter dinheiro.

Encontrei, no meio da rua Purpurina, com um filho no ombro e outro da mão enquanto procurava o terceiro, o Walter Waltão, que não via desde 1980. Ainda bem que eu não acredito em sinais, como já disse: o Waltão, aquele que conheço desde antes de me casar com a Mariângela, militante do PT dos velhos, uma das primeiras pessoas que me apresentaram em São Paulo, é sobrinho do Zé de Bi, segundo secretário do diretório do PT de -- quem adivinhar ganha um arroz com pequi -- Pirenópolis. Haja ceticismo...

Agora que me lembro, bem que o Zé de Bi comentou que tinha um sobrinho em São Paulo. Eu devia ter adivinhado.

Voltei via Piracicaba. Cheguei às oito da noite, como quem volta para casa, e saí à uma da tarde, como quem sai de viagem para voltar logo. É engraçado como Ityrapina continua parecendo um lugar para passar férias.

A Bea queixou-se de que eu estava reticente. Mal sabe ela o que me custa encarar minha terra.

São dez e meia da noite. Escorpião está bem acima da minha cabeça, completo apesar da fumaça das queimadas dos canaviais: o horizonte está vermelho, mas não é por causa da greve geral de depois de amanhã; Proxima centauri queima-se em glória, com seu mistério de vizinha. Por que será que ainda não apontaram o Hubble para ela? Amanhã, de manhãzinha, começo mais um manual de auto-ajuda, desta vez hassídico; deve ser o quinto ou sexto da minha carreira.

 

200696

De volta à bosta de passarinho! À de cachorro! O Nicolau continua de maus bofes! Segundo as estatísticas, enquanto eu estive em São Paulo, foram abertas 50 novas ruas! Uma Ityrapina inteira! De favelas! Estou de muito bom humor!

E não me segure do braço, que eu não sou de companhia.

Tem umas vinte crianças aqui na frente, esperando o ônibus que as leva à escola em São Carlos. Vinte quilômetros de ida, vinte de volta, todos os dias, algumas de manhã, outras à tarde, com um motorista que, como o que levava o Daniel em Pirenópolis, tem cara de quem aproveita as paradas para tomar uma zinha.

Indo almoçar no La Pequetita, hoje às onze e meia da manhã, descobri uma coisa terrível: não posso andar na rua com vento de popa, o cabelo cai nos olhos e fico tropeçando. Vou ter de instalar uma meia de aeroporto aqui em casa para verificar a direção do vento antes de sair de casa, ou cortar o cabelo.

Como é que eu vou traduzir "soul food"? Faço uma nota antropológica apoiada em citações eruditas, ou mando ver ao pé da letra e o editor que se vire? Quanto me estão pagando? Na biografia daquele general negro americano, como é mesmo, o Colin Powell(s?), apareceu a mesma coisa, mas não me pagavam o bastante para pesquisar; e, além disso, o editor era outro.

Instalaram meu telefone. Tive de pedir o aparelho do vizinho emprestado para testar a ligação, e aproveitei para ligar para a mamãe e a namorada. Mamãe me deu os parabéns pelo novo brinquedo e a namorada perguntou se eu continuava mal humorado.

Não é a primeira vez que ela me vê com a pá virada, mas é a primeira vez que fica tão incomodada. Deve ser porque eu voltei de São Paulo assim.

Devo estar com depressão, ira, ressentimento, hostilidade, tédio, amargura, ansiedade, ciúmes e todo o resto dos estados emocionais negativos. O livro que estou traduzindo diz que vou sentir tudo isso se não fizer o que a autora manda. Então é isso.

Bem que eu desconfiava que me faltava alguma coisa na vida.

Estava no bar do Roberto discutindo a rapidez com que a carne de frango pega tempero, apoiado na minha longa experiência como cozinheiro profissional e, de repente, paf!, faz vinte anos que fui cozinheiro.

De fato, tem um buraco aí nessa minha vida. Mais ou menos uns dez anos.

 

210696

Estou em greve.

 

220696

Pensei em apagar quase tudo o que escrevi nos últimos dois dias, desde que voltei de São Paulo. A cidade me deixa em um estado tal que mal consigo articular o que estou sentindo, coisa em que já não sou lá muito bom. Chego aqui e só consigo ficar olhando para o céu por uns três dias

 

230696

A cada dia que passa, estando fora, sinto mais vontade de voltar logo para Ityrapina e cuidar da casa, arrancar o mato do jardim e do quintal, passear pelo cerrado.

 

250696

Lembro-me de um molequinho que morava em Santana, em frente ao Hospital da Aeronáutica que estava em construção naquela época e até hoje não ficou pronto. O caminhão da Vigor parava diante do portão da casa dele com aquele barulho de garrafas que os caminhões da Vigor faziam e o molequinho descia o jardim em declive até a mureta baixa que marcava o começo do abismo até a calçada de pedra lá embaixo, olhava para o caminhão como para confirmar que era aquilo mesmo e subia de volta o jardim às carreiras, gritando: "Ugute! Ugute!".

A gente anda pela cidade e vai vendo um bar fechado atrás do outro e fica pensando como a crise está feia. Ontem, que foi segunda feira, saí à noite pela primeira vez desde que estou aqui, e tome surpresa: este não é aquele barzinho que estava fechado há dias? E aquele ali também, e lá e acolá (sempre quis ter um motivo para dizer que alguma coisa estava "acolá": pronto, consegui). Entrei em todos, tomei uma cachaça em cada um e desvendei o mistério: os donos trabalham durante o dia no presídio como guardas. Chegam em casa, tomam um banho, beijam a esposa e as crianças e vão abrir seus bares para reforçar o orçamento. Como os únicos por aqui que têm dinheiro para gastar em bar são os guardas presidiários, ficam todos vazios. Mas abertos e luminosos.

Passei a tarde em São Carlos e encontrei o avô da Fernanda, o Germano Fehr, de paletó e colete, na Praça dos Voluntários, bem no centro da cidade. Parei para tomar um guaraná num desses carrinhos e, quando levei a garrafa à boca, lá estava ele, com os olhos além do horizonte e cara de quem estava vendo um futuro brilhante. O ambulante que me vendeu o guaraná, um velhote encarquilhado e simpático, trabalhou na tecelagem lá pr'os idos dos anos 50.

São Carlos até que é simpática, mas é meio esquisita. É do tamanho de Rio Claro, mais ou menos, mas parece muito mais sofisticada. Em compensação, o centro da cidade parece aquelas cidades do sul da Bahia: comércio amontoado, dezenas de lojinhas pequenas, vendedores como aves de rapina na porta de seus negócios, ambulantes por toda a parte. Andei umas dez quadras a esmo atrás de um restaurante e só achei lanchonetes. Quando finalmente achei um, valeu a pena: a cervejaria São José, com um bar que até arak, pernod e grappa tinha, rã à passarinho, lombo aperitivo, bauru de filé, carpaccio à dna. amélia, sucos, camarão, bacalhau, bar de jacarandá com topo de mármore, chão de lajotas anos 20, cristaleiras de 4 metros de altura também de jacarandá, vista para a praça: perfeito. Fiquei da uma às quatro, tomei uns cinco araks, saí cambaleando para encontrar o avô da moça em outra praça, suei ladeira acima pela avenida São Carlos e achei um dos sebos mais bonitos que já vi no Brasil, propriedade de uma ex-vereadora do PT. Pé direito baixo, muito baixo, salas e mais salas limpas e bem arrumadas, mais de 20 mil títulos separados por tema, tapetes pelo chão, belos quadros nas paredes. Comprei dois cortázar, um le carré e um clancy. Desci a avenida, feliz da vida, acenei um até logo pr'o vovô e voltei de ônibus.

Bela tarde.

Cheguei em casa e, por um breve momento de ilusão feliz, achei que o Nicolau tinha sido levado embora, resultado talvez do Tratado de Ityrapina, firmado ontem após longas negociações entre as partes envolvidas. Mas logo ouvi-lhe o rosnado vindo do fundo do quintal, prometendo-me castigos terríveis assim que ele conseguir livrar-se da corrente que o prende do lado de lá do Hades.

 

260696

Por que é que começo a fazer planos como se fosse ficar por aqui para sempre? Eu precisaria ter passado por uma enorme transformação, clandestina até para mim, para ficar na mesma casa por mais de um ou dois anos. Mas, cada vez que mudo, começo a estender tentáculos à minha volta, fazendo contatos, lançando projetos, iniciando amizades, formando laços, noivando, pondo idéias na cabeça dos outros, comprometendo-me.

Depois, como sempre, viro as costas e deixo todo o mundo pendurado na brocha. Mas é claro que todo o mundo não tem como saber que isso vai acontecer. Até eu acho que não vai.

Ontem, aliás, saí de casa para ir para Brotas. E acabei em São Carlos, que fica do outro lado.

Hoje é dia de dar uma geral na casa: passar o ancinho na grama que cortei ontem antes que a de baixo comece a amarelar, transferir a penteadeira de um quarto para o outro, guardar as meias e camisetas, construir um raque para os sapatos, pôr o quarto de pernas para o ar, varrer tudo, passar pano, limpar a bosta de passarinho da varanda, achar duas ou três vigotas para erguer o estrado da cama, recolher a roupa suja espalhada pela casa, lavar as janelas, arrancar os galhos secos do maracujá e da primavera, trocar as lâmpadas queimadas do banheiro, da sala e da cozinha, descobrir o que tem nas caixas de papelão empilhadas no quarto "das crianças", pensar em uma solução para a tralha do Nelson empilhada na varanda, no escritório, no quintal, no banheiro. Meu dia de Maria.

Falar, como sempre, é bem mais fácil que fazer.

Quem estiver lendo isto por favor anote: preciso de cinzeiros, com urgência. Ó musa, traze-me um das tuas andanças!

 

270696

Outro moleque trancou-se com um peru bêbado em uma espécie de quarto de despejo no quintal de uma casa que já não existe na rua principal de Indaiatuba. No quarto havia uma quantidade enorme de garrafas transparentes, guardadas ali sabe-se lá para qual propósito obscuro. Ele ameaçou quebrá-las uma a uma até obter a promessa de que a vida do dipsomaníaco quase símbolo do grande irmão do norte seria poupada.

Se não me falha a memória, todos em casa comeram galinha naquele natal.

Poucos meses antes, ou depois, um moleque muito parecido com o das garrafas saiu atrás de uma tia que estava voltando para São Paulo e perdeu-se na periferia que hoje fica no centro de Indaiatuba.

A rádio Estância está tocando "If", com os Bee Gees, música que embalou minha primeira grande paixão, por uma moça de Taubaté que conheci em Bertioga. Voltei para São Paulo e fui direto para a casa de um amigo que tinha telefone e comecei a ligar para todos os números em Taubaté, via telefonista naquele tempo, perguntando a quem respondesse do outro lado se por acaso o senhor ou a senhora não conhece uma moça assim e assado aí na cidade. Estava quase conseguindo quando o pai do meu amigo chegou e acabou com a festa.

Anos, muitos, mais tarde, fiz a mesma coisa atrás de uma moça que se tinha ido esconder no sul da Bahia, mas dessa vez o telefone era meu, e achei a fugitiva. Fui atrás dela, que ficou muito contente e vaidosa com o meu trabalho de detetive, voltou de mãos dadas e abraçadinha e trocando beijos comigo durante toda a viagem de Eunápolis a Brasília, mas dar, que é bom, nada.

Acordei reminescente, hoje, né? Também, são três da manhã. É o que acontece quando a gente vai para a cama às nove da noite.

Eu estava sonhando com galinhas.

Hoje começa de novo o grande circuito: Ityrapina, Rio Claro, Piracicaba, São Paulo, Ityrapina; da minha casa para a casa da mamãe, da casa da mamãe para a casa da Bea, da casa da Bea para a casa da Bel com uma extensão para a mesa da Fernanda, da mesa da Fernanda para a minha casa. É muita casa e pouca mesa.

 

030796

Férias motorizadas. A musa não estava disponível, e voltei para casa na segunda com o Edu, a Yara e o Dedeco, via Piracicaba, com parada para beijo na Bea, Águas de São Pedro com parada para almoço, São Sebastião da Serra, Itaqueri da Serra e Ityrapina. Saímos ao meio-dia, chegamos às seis e meia. Bela viagem. Os Leme ficaram de segunda até hoje. Estivemos em Analândia para almoçar no restaurante do húngaro ao pé da cachoeira e de lá fomos encher a cara em São Carlos, na já famosa cervejaria São José ao pé da igreja. A minha já estava razoavelmente cheia, acordei ontem de cu virado e abri o dia com dois domecqs e água com gás no La Bambina só para dar o tom, continuei com quatro ou cinco doses auto-servidas de aguardente de ameixa no restaurante do seu Lazjos e encerrei com vários araks com suco de laranja na São José. Sem contar as cervejas. Moço respeitoso, fiz questão de cumprimentar o musavô na entrada e na saída.

Fui direto para a cama e a guerra fria clanciana assim que cheguei, e dormi quatorze horas direto. Estava precisando. Acordamos, fomos almoçar em Cachoeira de Emas -- bonitinha, mas ordinária, e a comida não estava lá essas coisas: tinha tudo para ser boa, piapara, dourado e pintado, frita, abafado e na grelha, mas estava sem graça -- um pouco para lá de Pirassununga. Tentei achar pinga de alambique por lá, mas depois que o terceiro dono de bar ameaçou chamar a polícia, achei que não estava com tanta vontade assim, e tomei guaraná mesmo.

Na volta a Ityrapina, o Edu achou que eu já estava sem trabalhar há tempo demais e resolveu encurtar as férias, e voltou para São Paulo.

Sábado chega a Cibele. Ô vidinha social movimentada!

Quanto mais passeio pelo estado de São Paulo, mais tenho vontade de escrever aquele livro anti-ecologista que estou formando há mais de três anos. Vou ver se convenço a Cibele a fazer algumas fotos.

Fiquei bem chateado por não ter conseguido ver a musa, e hoje me surpreendi pensando que preciso vê-la com alguma urgência, antes que ela deixe de cumprir o papel que vem cumprindo com louvor há mais de um ano.

O vento está soprando na direção errada, e o cheiro de galinha molhada da granja da estrada de Camaquã está insuportável.

 

050796

Vou lá ver se a Eneida depositou ou não o meu dinheiro, já volto.

Não depositou, e não voltei. Acabei indo para Rio Claro, onde recebi o recado de que a Mayra me tinha telefonado de São Paulo. Amanhã tem festa na casa dela. Vou ou não?

Quanto não, quanto vou, quanto volto!

 

070796

Se eu fizer isso de novo, não volto para contar a história: onze horas da manhã, partida de Rio Claro para Ityrapina. Parada para espera do dinheiro da Eneida e, como ele não veio, saída às quatro para São Paulo. Chegada às dez da noite, jantar com a Mayra e a Márcia (valpolicella, hummm, fondue de queijo, hummm). Prà cama às três da manhã, alvorada às seis, telefonemas apressados às oito, saída para São José do Rio Pardo às duas e meia, chegada em Rio Pardo às sete da noite. Tudo isso de carona, e sem um único centavo no bolso. Um dia eu conto como é que se faz.

Uma coisa eu sei: é muito bom para emagrecer.

Depois de todas essas cidades e meses, só agora percebi o que me incomoda em todas elas: a minha geração não sai à rua de noite em nenhuma delas. Estão todos em casa vendo televisão. As ruas ficam entregues à adolescência motorizada.

 

080796

Me leva para a tua casa, disse ela, mas eu só tinha horas e palavras para oferecer, e fomos sozinhos encontrar o tempo: rostos vagos, bares, longas fileiras de luzes, garrafas, ruas infinitas, música de rádio, estradas escuras, pontes, água, uma saudade impossível de definir, a noite e suas manhãs, mãos e bocas, o céu estrelado sem fundo, o céu nublado impiedoso, suor e estupor, uma embriaguez terrível e perpétua e a dor onipresente, o passado inteiro a nos levar pela mão. Me leva para a tua casa, ela disse, olhando-me sem peso, e mostrei-lhe as casas todas da minha vida e os caminhos entre elas, passando o fio inteiro dos meus anos na lâmina verde de seus olhos, e aos meus próprios as imagens pareceram de repente novas e frágeis e duvidei estar ali ouvindo-me, como ela me ouvia; e percorremos os parques da cidade como quem olha vitrines à noite, com a neblina logo ali e a manhã longínqua. Me leva para a tua casa, disse ela, e eu disse vamos de trem, chegamos depois de amanhã. Me leva para casa, disse ela, e nunca quis tanto ter a minha casa.

Quero violões e uma varanda, quero nuvens distantes e a sombra dela a proteger-me do sol que ilumina o mundo em que não há nada que eu queira.

 

 

III
julho/agosto

O cônsul parou e leu a inscrição: "No se puede vivir sin amor".