16/02/2008 01:45
1534, 24 de fevereiro.
Münster está tomada. É noite. As tropas do bispo Waldeck já se movem em direção à comuna e organizam o cerco, mas o domínio da população sobre a cidade ainda está firme, como o da assembléia popular em Oaxaca há dois anos. Jan Matthys chega do exílio em Rotterdam depois de atravessar toda a Alemanha e vai diretamente para a praça principal, onde toda a cidade o espera. E fala:
"Não eu. Não eu. Não sou o que adorais, ó felicíssima multidão dos eleitos de Deus. Não eu. O fogo esta noite queima nos altares, lambe as estátuas, queima até o inferno tudo o que foi. E nunca mais será. O velho mundo é consumido como pergaminho nas chamas. O mundo, o céu, a terra, a noite. Tempo. Nada disto jamais será de novo. Não é a mim que elevais à glória da eternidade. Não eu. O Verbo não conhece o passado, o futuro, o Verbo é só o presente. É a carne viva. Tudo o que conheciais, o podre sentido comum do mundo que foi. Tudo. Tudo cinzas. Não é a mim que estais levando à vitória. Não é a mim que estais dando este dia de glória. Não é a mim que defendeis, com os punhos cerrados, contra o vosso inimigo. Não sou o capitão desta guerra. Não esta boca, estes ossos consumidos pela paixão. Não. É o Senhor, vosso Deus. Aquele a quem sempre vos forçaram a adorar nas igrejas, sobre os altares, prostrados diante de estátuas. Ele está aqui. Deus é este sangue, estes rostos, esta noite. A glória dEle não é a glória de um dia, não dura o que as festividades da estação, mas procura a eternidade. A glória dele agarra a eternidade com um punho de ferro, mói, martela, esmaga. Lá fora, além destes muros, o mundo já acabou. Atravessei o vazio para chegar aqui. E os campos se afundavam depois de eu passar, os rios se secavam, as árvores tombavam e a neve caía como chuva de fogo. E sangue, uma maré montante de sangue. Um oceano que se ergue, uma onda de fúria. Quatro cavaleiros galoparam junto a mim, os rostos da morte, da pestilência, da fome, da guerra. Cidades, castelos, aldeias, montanhas. Nada resta. Deus só se deteve junto a estes muros, para chamar as vossas almas, as vossas armas e a vossa vida. E agora Ele vos diz que as Escrituras estão mortas e que é na vossa carne que ele vai gravar o novo Verbo, vai escrever o derradeiro testamento do mundo e envolvê-lo em chamas. Vós, Babilônia de lama e mentiras. Vós, os últimos da terra. Sois os primeiros. Tudo começa aqui. Com estas torres. Com esta praça. Esquecei-vos do vosso nome, da vossa gente, dos vossos mercadores ímpios, dos vossos curas idólatras. Esquecei-vos de tudo. Porque o passado pertence aos mortos. Hoje tendes um novo nome e esse nome é Jerusalém. Hoje sois levados à batalha por aquele que vos chama. Guiado por vossas mãos, o machado dEle construirá o Reino, passo a passo, tijolo a tijolo, cabeça a cabeça. Até o céu. Mais humilde das ralés, povo oprimido de uma era distante, hoje lutareis sem temer o mal, exército de Deus do Reino por vir. Porque o vosso capitão é o Senhor."
[Luther Blissett, Q. Milano, Einaudi, 2000 - Tradução minha.]
enviada por Tomás Rosa Bueno
20/11/2007 08:33
Os dias de miséria hão de acabar
Acabamos de passar a noite na farra, apesar de tudo o que temos para fazer hoje. São seis da manhã e eis-me aqui, sem dormir, com quilos de trabalho para entregar dentro de algumas horas, enquanto a Fernanda e dois amigos estão animadíssimos no quarto de hóspedes, falando sem parar.
Já era hora que eu recomeçasse a escrever algo neste estilo. O mundo passou por mim, e eu por ele, e nada ficou além da impressão de que este interregno de doze anos em quatro países foi apenas uma preparação para agora. Sinto-me exatamente como anunciei há bem mais de um ano, intrigado: tenho de novo consciência de uma idéia nova, mas não sei aonde ela vai me levar. Sinto que o mundo à minha volta, e também o mais distante, estão passando pelo mesmo que eu. Teremos dias imponentes pela frente.
Vou começar hoje a ler “El segundo movimiento”, da Alicia Miranda, a tradutora e não sei se ainda amiga costarricense do Raphael Pallais, o ex-revolucionário que virou agente de “artistas de vanguarda” -- e eu que cheguei a pensar que talvez tivesse sido precipitado em romper com este que é hoje um mercador de neolixo. Escrevi para ela contando que ia começar a ler o livro, quase dois anos depois de o ter recebido sem sequer acusar recebimento e agradecer. Mas tenho certeza de que ela não vai ficar chateada. Somos assim.
A profecia é uma profissão perigosa. Poucos, ou nenhum que eu conheça, sobrevivem a ela. O mundo está pejado de ex-profetas bêbados, loucos, conformados, conformistas, resignados, submissos e humilhados, caminhando sobre os túmulos dos que não se renderam. A minha sorte é não ter sido profeta, mas apenas irresponsável.
enviada por Tomás Rosa Bueno
22/09/2007 13:16
Por enquanto, para quem lê francês
Um excelente texto sobre o anti-semitismo moderno pode ser lido aqui.
Em breve, mas não pra amanhã, tradução em português.
enviada por Tomás Rosa Bueno
03/06/2007 00:17
A previsibilidade do Chávez
Em resposta a "Chávez e a imprevisibilidade"
Ótima a análise da imprevisibilidade dos regimes personalistas, mas não acho que se aplique ao caso do Chávez e da Venezuela. Por um acaso da dinâmica social da Venezuela, que o Chávez apenas encampou, a sociedade venezuelana vem há alguns anos (antes mesmo da ascensão do Chávez à presidência) organizando-se pela base de várias maneiras, sendo uma delas os que ficaram conhecidos como "círculos bolivarianos", único aspecto dela que, por sua imponente presença, consegue furar o cerco de censura. Esta organização de base, que é o que proporciona o grosso da sustentação popular do governo Chávez, não é uma criação dele, e na verdade não só o antecede como vai chegar o momento em que o próprio Chávez, ou quem o suceder, vai acabar tornando-se num obstáculo para ela. O Chávez pegou esse bonde andando e, matreiro e oportunista como é, soube aproveitá-lo para seus próprios fins. Mas essa organização de base só é e só será "chavista" enquanto o Chávez for "basista". Além disto, de carona nessa organização (que permeia todos os aspectos da sociedade venezuelana, chegando ao ponto de, por exemplo, os próprios telespectadores se terem organizado em "organizaciones de usuarios y usuarias" que são a base da Conatel, a Anatel venezuelana), e em grande parte para responder e antecipar-se aos seus anseios, a nova constituição patrocinada pelo Chávez assegura mecanismos de controle pela base (revocabilidade dos mandatos eletivos por iniciativa dos eleitores, facilidades extremas para as leis de iniciativa popular, incentivo oficial à criação de organismos de base, controle orçamentário local e outros) que tornarão extremamente difícil qualquer tentativa de reverter o processo de transformações temporariamente liderado pelo Chávez. Aliás, desde já, vem dessa organização a extrema incapacidade dos setores de "oposição" ao Chávez de mobilizar apoio popular para as suas causas, e da desconcertante e humilhante série de derrotas que esses setores vêm sofrendo. E é também pelo perigo que ela representa para o esquema tradicional de dominação que se explica a extrema virulência da oposição ao Chávez, dentro e fora da Venezuela. Não é ao Chávez que essa gente se opõe -- é ao que está por trás dele, a "plebe inculta" organizada e atuante. E que, diante da ausência súbita ou esperada do "líder", saberá encontrar outras formas de manter e ampliar o seu controle sobre a vida social venezuelana.
enviada por Tomás Rosa Bueno
31/05/2007 11:05
A virgem de fibra de coco
O PSOL não perde aquele seu jeitinho urubu-na-carniça de ser. Não se livra daquela cara de oba-agora-que-o-PT-se-deu-mal-a-gente-va -se-dar-bem.
No fundo, é a mesma atitude arrogante, a mesma postura de líder onisciente das massas ignaras que levou o PT ao jesuitismo e ao desprezo pela coisa pública. Se é para o bem do "povo", todos os meios são válidos. Nós somos a vanguarda, nós sabemos o que é bom para todos.
No afã de se apoderarem do que supõem ser os despojos do PT, os oportunistas do PSOL não se acanham em alinhar-se objetivamente com tudo o que o país tem de pior, do Gabeira ao ACM. É óbvio que, na hipótese improvável de esse bando de iluminados chegar ao poder, o PSOL faria exatamente a mesma coisa que hoje critica, hipocritamente.
enviada por Tomás Rosa Bueno
28/05/2007 13:49
Comentários enviados a um jornalista que não quer ver
I
As formas assumidas pelo "movimento estudantil do Século XXI" na ocupação da reitoria da USP estão em linha com movimentos similares em todo o mundo, cujas raízes estão em experiências históricas de democracia direta como a Comuna de Paris, os sovietes russos (os verdadeiros, não o arremedo deles no capitalismo de Estado), as comunas camponesas da Espanha republicana e muitas outras; e, neste novo século, cada vez mais presentes em todo o mundo.
Assim como está mais presente e atuante, também, a censura a qualquer menção a movimentos desse tipo. Alguém sabe, por exemplo, do papel que os "shoras", conselhos de trabalhadores, tiveram na derrubada do xá do Irã, no longínquo ano de 1978? Ninguém jamais se perguntou o porquê do açodamento francês em enviar o aiatolá Khomeiny ao Irã? Alguém soube que em 2001, e por mais de dois anos, na região da Cabília na Argélia, assembléias de aldeia e de bairro conhecidas como "aarouch" ("aarch" no singular, procurem no Google se não acreditarem em mim) expulsaram de suas cidades e aldeias a polícia, o exército e todos os partidos políticos, e dominaram completamente a vida social por meio de assembléias democráticas onde não havia direção formal e não se permitia a ninguém falar em nome do movimento se não fosse lendo um documento discutido e aprovado por todos? Ou, aqui mesmo ao lado, na Argentina, onde o movimento espontâneo do "Que se vayan todos" derrubou o de la Rúa e depois, organizado em assembléias de bairro cujos princípios de funcionamento democrático eram igualmente radicais e que se reuniam nas esquinas de Buenos Aires e em todas as cidades grandes e médias do país, derrubou mais dois presidentes, impediu um terceiro de governar por mais de dois anos e finalmente ditou grande parte da agenda de um quarto, o Kirchner? Ou alguém aqui acha que o Kirchner, do centro peronista, tomou todas as medidas que tomou contra o FMI da cabeça dele? Alguém ouviu dizer que em Oaxaca, no México, uma "Asamblea Popular de los Pueblos de Oaxaca" nos mesmos moldes democráticos das anteriores expulsou o governador, a polícia e todos os deputados do estado e foi o governo efetivo por seis meses, até a entrada do exército na cidade, há apenas três ou quatro meses? E que o movimento, apesar da presença das forças armadas na capital, continua dominando parte da cidade e praticamente todas as demais cidades do estado?
E nem uma única linha sobre estes grandes movimentos, dois deles praticamente aqui ao lado, apareceram na grande (ou na pequena) imprensa brasileira, nem de qualquer parte do mundo. Graças a essa censura, nem um desses movimentos espantosamente semelhantes sabia da existência dos outros (e é provável que haja e tenha havido outros, também ocultos). E, no entanto, eles continuam aparecendo, sempre com as mesmas características democráticas radicais; e com cada vez maior freqüência. Já estava na hora de aparecerem também no Brasil. Se este de agora, de que a imprensa fala inadvertidamente por se tratar de um embaraço para o Serra e de uma aparente novidade (mas já começa a caluniar) vai ter "filhotes", se vai ou não servir de inspiração para outros aqui mesmo, ainda é cedo para dizer. Mas ele com certeza faz parte de uma tendência mundial, e não vai simplesmente desaparecer, por mais que se tente ocultá-lo, caluniá-lo e, em última instância, esconjurá-lo.
II
Em resumo, e aproveitando o gancho do comentário do Virgílio, o que está em curso na USP é apenas *mais uma* manifestação do movimento que vai além do óbvio e desastroso fracasso do modelo liderança/liderados de atuação política. É uma resposta a esse fracasso. Não se trata, portanto, de "falta de parâmetros", mas de outros parâmetros, distantes demais da percepção dos que se aferram ao velho modelo que, mais que estrebuchando, já está fedendo.
Comparar os ocupantes da reitoria da USP aos maoístas reciclados do MST, com o modelo "longa marcha" de uma liderança tanto mais irresponsável quanto mais informal for, que apenas disfarça e dilui a velha dicotomia entre pensadores e executantes, é não entender que a principal característica deste novo movimento é justamente rejeitar o conceito de liderança, substituindo-o pelo da responsabilidade coletiva e partilhada, pelo anonimato e o combate ao estrelismo. É o modelo "fuenteovejuna" de movimento social.
Os que insistem em vinculá-lo às formas antigas de perpetuação do poder poderão talvez confundir as coisas, e antes de mais nada a si mesmos, por algum tempo. Mas o movimento veio para ficar. Já há dois anos, foi prefigurado no exemplar movimento dos secundaristas de Salvador contra o aumento das tarifas dos ônibus, coordenado via celulares e sem qualquer liderança visível (nem invisível). Vamos vê-lo em outras ocasiões, cada vez mais articulado, cada vez mais ousado.
enviada por Tomás Rosa Bueno
22/04/2007 23:14
Como já disse alhures, tive uma idéia, mas não sei aonde ela vai me levar.
